O “lado negro” do Fandom

Faço parte de fandoms desde a mais tenra idade. Desde antes mesmo saber o conceito da palavra. Sou da geração pré internet, então, por mais que o conceito já existisse, ele não era muito abrangente ou não chegou a ser difundido entre o meio em que eu estava inserida.

Sempre me fascinou estar acolhida em um meio onde as pessoas pudessem compartilhar aquilo que elas gostavam, discutir sobre séries, franquias, trocar figurinhas e o mais importante: não sentir-se sozinho, saber que você não era o único ali que era um nerd com uma plumagem exótica nos tenebrosos anos de colégio. O fandom era como uma casa.

Foi por causa de fandoms que eu fiz meus melhores amigos, que eu me relacionei com as principais pessoas que influenciaram minha vida, que eu catei referências da vida. E não foi diferente quando eu escolhi o meu objeto de estudo na faculdade.

Em minha pesquisa, ressaltei a importância do fandom, falei da identidade, da representatividade e de como o pertencimento dentro dessa comunidade era algo positivo para os jovens. Inocentemente ignorei alguns aspectos nefastos dos fandoms e trouxe uma visão mais positivista e – porque não – um pouco rasa sobre o assunto. Eu era bastante jovem, idealista, uma formanda em jornalismo apaixonada cheia de sonhos e ambições..

Desde a gênese, os grupos de fãs trazem em seu cerne aspectos positivos e negativos, assim como todas as relações humanas, em que cada indivíduo traz dentro de si suas experiências pessoais, suas visões de mundo e de como foi introjetado em sua maneira de relacionar-se.

A era da internet trouxe uma nova maneira de relações, produção e distribuição de conteúdo. Os fandoms se organizaram de uma nova maneira, assim como os indivíduos que constituem ou dizem fazer parte desse grupo.

Nos recentes casos de ataques racistas a atriz Kelly Marie Tran, intérprete de Rose Tico do filme “Star Wars – O último jedi” em suas redes sociais, podemos perceber que há muito o ambiente do fandom vem passando de um local acolhedor e plural para debate de ideias para um ambiente tóxico no qual pessoas utilizam as redes sociais para propagar seu ódio à minorias e todo tipo de racismo e preconceito.

Entenda o caso no vídeo abaixo feito pelo portal Cinema com Rapadura

Por ser um ambiente sem dimensões mensuráveis, o fandom gera essa permissividade para que indivíduos adentrem, e em posse desse título de fã possa realizar esses ataques ou divulgar mensagens de ódio. Esta é uma possível teoria que explica de onde se originam esses agressores.

Com condições favoráveis ao anonimato proporcionado pelas redes sociais, e outra série de fatores vantagens, os ataques só se multiplicam a cada dia. O mundo vive uma era de ódio e intolerância sem precedentes, e, com tanta dependência das tecnologias, onde quem domina primeiro o outro por meio dela, as comunicação e relações online são apenas um reflexo.

Ódio, intolerância, racismo, são como combustíveis inflamáveis que são reproduzidos pela sociedade. E enquanto esses mesmos valores continuarem a ser reproduzidos diariamente, seremos cegos tateando à escuridão da ignorância, caminhando para a nossa própria destruição, pois quando eu os reproduzo, eu não prejudico apenas ao outro, mas a eu mesmo.

À decisão da atriz de apagar sua conta na rede social não cabe julgamentos. Tamanha onda de ódio está gerando o afastamento de diversas celebridades das redes sociais. E isso é uma grande perda, um lado da comunicação é cortado, silêncio. Medo.

Representatividade é algo que incomoda, muito. Quem sempre teve privilégios não os quer compartilhados com mais ninguém, ou não tem a capacidade de discernir que eram privilégios desde o princípio. Mas território se conquista assim mesmo, a batalha nunca é fácil, mas é necessária.

Em meio a uma era tenebrosa, é necessário mostrar que todo esse ódio não se transformará em mais ódio. A tolerância e a exposição dessas pessoas que confiam no anonimato da internet são fundamentais para que casos assim não aconteçam mais.

E se você, assim como eu, é nerd e presencie algum caso de ódio, intolerância ou racismo, não compactue com ele. Denuncie e reporte. Não deixe que o lado negro da força se expanda. Você tem a capacidade de construir um fandom melhor, não importa a série que você seja fã. Respeite o outro, ele é tão fã quanto você e merece respeito igualmente. E que a força esteja sempre com você!

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