“Cristal Na Veia” – Alma Nua – Um ensaio

Primeiramente pensei em escrever uma resenha sobre esse livro, já que escrevo sobre coisas interessantes ou que me chamaram atenção em minhas leituras, mas percebi que eu estaria sendo injusta ao escrever uma opinião ou um parâmetro de julgamento deste livro por dois motivos: O primeiro é que eu não acho de forma alguma que conseguiria escrever sobre ele nessas condições (até cheguei a ler algumas resenhas no Skoob, que não fazem justiça ALGUMA sobre ele), pois “Cristal Na Veia” é muito mais que um livro sobre drogas. Nic Sheff desnudou sua alma por inteiro em formato de livro. É algo muito difícil de descrever com palavras. E o segundo motivo é que, se eu escrevesse uma resenha, provavelmente eu iria acabar deixando esse livro de lado, num canto da estante e talvez nunca mais fosse falar sobre ele, e eu tenho certeza que ele vai continuar grudado na minha memória por muito tempo.

Como grande fã que sou, procuro saber das coisas que as pessoas a quem admiro estão fazendo, e logo que anunciaram que Timothée Chalamet estaria em um filme baseado em uma história real, me interessei logo de cara em saber mais sobre o que se tratava. Comecei a conhecer a história de vida da família Sheff quando comprei “Beautiful Boy” e comecei a ler durante uma forte gripe que me fez passar mais de uma semana sem sair de casa. Naquele período de isolamento, que foi quase como um retiro espiritual, eu me conectei inteiramente com o que David narrava sobre a própria vida e a vida do filho.

Aquarela que eu fiz baseada nessa bela foto do Nic e David / Watercolor that I made based on this Nic and David picture

Cada linha do livro me despertava uma empatia maior pelo que aquele pai contava sobre os acontecimentos, seus sentimentos, sua vida. Eu não parava de marcar o livro inteiro com marcadores coloridos. E eu acabei conhecendo o Nic pelo que ele contava, visto com os seus olhos. Chorei muito no final. Eu estava perdidamente apaixonada pelos dois. Porém, uma coisa é ver os acontecimentos com seus olhos, outra é senti-los – com o perdão do trocadilho – na própria pele.

 

Após terminar a leitura, encomendei a própria versão do Nic sobre a dura vivência do vício, “Cristal Na Veia” em tradução brasileira (que eu odiei por sinal). Porém, comecei a leitura no pior período da minha vida pessoal possível. No ano de 2018 passei por mais crises de depressão e ansiedade do que eu imaginava ser possível. Me senti fraca por estar desistindo de ler o restante do livro, não fui além da página 80. Mas jurei ao próprio Nic que eu terminaria de ler e eu consegui. Agora estou escrevendo no dia em que li a última página e contando como foi a experiência.

 

A escrita do Nic é completamente visual, e ouso dizer que me lembra muito a do Jack Kerouac. Ele evoca de forma corajosa os detalhes de suas andanças pelas ruas nos dias sombrios de vício. Mais impressionante do que ele narrando tudo o que viu, sentiu, experimentou só mesmo as pessoas que ele conheceu durante o período de 642 dias (ele divide assim o período selecionado por ele nos relatos). Li em algum lugar que somos também o resultado das pessoas que passam por nós, boas ou ruins, sem distinção. Acredito realmente nisso.

 

Não tem como terminar de ler esses dois livros e não se sentir de uma maneira ou de outra próximo dele. Experimentei inúmeras sensações lendo esse livro. Nic fala bastante nas terapias que ele fez durante o período de internação, o programa dos doze passos, mas também não pude deixar de notar que ler esse livro foi uma grande terapia para mim. Tive momentos de abraçar tolamente o livro pensando que estava abraçando o próprio Nic, tive momentos em que eu quis jogá-lo pela janela, momentos em que eu só chorava em silêncio e momentos que eu até dei umas risadas.

Sim, eu literalmente abracei esse livro! / Yeah I literally hugged this book!



Sei que sou uma pessoa muito inexperiente ainda, apesar da muita idade, mas aqueles mesmos sentimentos de abandono, tristeza, vazio, desesperança estavam ali. Pessoalmente, nunca experimentei drogas apesar de haver pessoas que amo que são dependentes químicas. Mas acho que não preciso dizer que relatos sinceros assim atravessam barreiras de países, línguas, cultura. Há algo de universal no sofrimento, na dor e também na cura. Minha mãe costuma dizer que o sofrimento dos outros me afeta de uma maneira diferente, há, de certa forma, uma grande capacidade em mim de reconhecer pelo que o outro está passando e uma necessidade constante de tentar ajudar, embora às vezes isso nem sempre seja positivo a mim mesma.

 

Não sei colocar em palavras exatas o que foi acompanhar essa fase da vida do Nic, as mudanças, suas falhas, seus recomeços, ainda mais o processo longo e doloroso que foi para ele se encontrar consigo mesmo e começar a se amar. Talvez todos nós passamos por esse processo doloroso quase como se fôssemos pássaros que precisam arrancar cada uma das penas para que novas nasçam. Essa automutilação é um ritual de passagem e faz parte da vida. Não se está imune a ele, é quase como uma das máximas de estar vivendo.

 

Peço perdão pelas bobagens que eu escrevi, também peço desculpas pela intimidade que criei com você, Nic. Só espero um dia poder te abraçar pessoalmente, não somente o livro feito de papel. Obrigada pelo grande presente que foi para nós ver você se entregar de uma maneira tão intensa e sincera.


                                                                   “Tweak” – A naked soul


I first thought about writing a review of this book as I write about interesting things or that caught my attention in my readings, but I realized that I would be unfair in writing an opinion or a benchmark in this book for two reasons: The first is that I don’t think at all that I could write about it under these conditions (I even read some reviews on Skoob, which don’t do ANY justice on him), because “Tweak” is much more than a book about drug addiction. Nic Sheff stripped his soul entirely in a book form. It is something very difficult to describe in words. And the second reason is that, if I wrote a review, I would probably end up putting that book aside on one corner of the bookcase and maybe I would never talk about it again, and I’m sure it will remain stuck in my memory for long time.

Speaking as a huge fan as I am, I try to find out what the people I admire are doing, and as soon as they announced that Timothée Chalamet would be in a movie based on a true story, I was immediately interested in learning more about it. I began to know the life story of the Sheff family when I bought “Beautiful Boy” and began to read during a strong flu that made me spend more than a week without leaving home. In that period of isolation, which was almost like a spiritual retreat, I connected entirely with what David told about his own life and his son’s life.

Each line of the book awakened a greater empathy for what that father told about the events, their feelings, their life. I kept tagging the entire book with colored markers. And I got to know Nic by what he said, seen with his eyes. I cried a lot in the end. I was hopelessly in love with them. However, it is one thing to see events with their eyes, another is to feel them – with the pardon of the pun – in their own skin.

After finishing reading, I ordered Nic’s own version of the hard experience of addiction, “Cristal Na Veia” something like “Crystal in veins” in brazilian portuguese translation (which I hated by the way). However, I started reading in the worst period of my personal life possible. This year, 2018, I went through more bouts of depression and anxiety than I thought possible. I felt weak for giving up reading the rest of the book, I did not go beyond page 80. But I swore to Nic that I would finish reading and I succeeded. Now I’m writing the day I read the last page and telling what the experience was like.

Nic’s writing is completely visual, and I dare say it reminds me a lot about Jack Kerouac. He boldly evokes the details of his wandering the streets in the dark days of addiction. More impressively than he narrated everything he saw, felt, experienced only the people he met during the 642-day period (he thus divides the period he selected in the accounts). I read somewhere that we are also the result of people passing us, good or bad, without distinction. I really believe that.

You can not finish these two books without feel one way or another close to him. I experienced countless sensations reading this book. Nic talks a lot about the therapies he did during the hospitalization period, the twelve-step program, but I also couldn’t help but notice that reading this book was a great therapy for me. I had moments of foolishly embracing the book thinking that I was hugging Nic himself, I had moments when I wanted to throw him out the window, moments when I only cried silently and moments I even laughed.

I know that I am a very inexperienced person, despite being a little old, but those same feelings of abandonment, sadness, emptiness, hopelessness were there. Personally, I have never tried drugs. Even though there are people I love who are addicted. But I don’t need to say that such sincere reports cross barriers of countries, languages, culture. There is something universal about suffering, pain and healing. My mother often says that the suffering of others affects me in a different way, there is, in a way, a great capacity in me to recognize what the other is going through and a constant need to try to help, although sometimes this is not always positive for myself.

I don’t know how to put into words exactly what it was like to accompany this phase of Nic’s life, the changes, his failures, his beginnings, and even the long and painful process that was for him to find himself and begin to love himself. Perhaps we all go through this painful process almost as if we were birds that need to pluck each feather for new births. This self-mutilation is a ritual of passage and is part of life. One is not immune to it, it is almost like one of the maxims of being alive.

I apologize for the nonsense I wrote, I also apologize for the intimacy I created with you, Nic. I only hope one day I can hold you in person, not just the paper book. Thank you for the great gift that has come to us to see you give yourself so intensely and sincerely.

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